Durante anos, começamos janeiro prometendo "criar mais conteúdo". E se, em 2026, o segredo para evoluir não for aumentar o volume, mas diminuir o ruído?
Eu entendo o apelo. A economia da atenção nos treinou para acreditar que visibilidade é sinônimo de volume. Nos disseram que, se pararmos de postar, seremos esquecidos pelo algoritmo.
O resultado? Chegamos ao final de 2025 com HDs externos de 4TB lotados de arquivos que nunca vamos abrir. Temos gigabytes de "conteúdo", mas quase nenhum "cinema".
Por isso, minha resolução para este ano vai na contramão do mercado. Em 2026, eu quero ser um criador "pior" para o algoritmo, mas um artista melhor para mim mesmo.
Bem-vindos à era do Slow Filmmaking.
O Vício no botão "REC"
Você conhece a sensação. Você chega em um lugar incrível — uma praia na Tailândia, uma rua em Paris ou apenas um pôr do sol na sua cidade. Antes mesmo de sentir o vento ou cheirar o ar, sua mão vai para o bolso. A câmera liga. O REC acende.
Nós paramos de olhar para o mundo e passamos a olhar para o monitor LCD.
O problema dessa abordagem "metralhadora" é que ela terceiriza a curadoria. Pensamos: "Vou gravar tudo agora e na edição eu decido o que presta".
Isso é uma armadilha. Quando tudo é gravado, nada é especial. A edição deixa de ser um processo criativo de contar histórias e vira um processo administrativo de gerenciamento de lixo digital.
A Regra do "Olho Nu"
Para 2026, proponho um desafio técnico e filosófico: A Regra do Olho Nu.
Antes de levantar a câmera, pergunte-se: "Eu já entendi o que está acontecendo aqui?". Se você não consegue descrever a cena em uma frase mentalmente, você não está pronto para filmá-la.
O Slow Filmmaking prega que a câmera só deve ser levantada quando a luz, a composição e o momento se alinham. É voltar à mentalidade do filme analógico, onde cada clique custava dinheiro. Hoje, o clique é "de graça", mas ele custa a nossa presença.
Editar para Sentir, não para Reter
A segunda parte da resolução é sobre o que fazemos com essas imagens.
Em 2025, fomos escravos da "Retenção". Cortes a cada 2 segundos. Legendas piscando. Músicas de tendência. Tudo para impedir que o usuário deslize o dedo.
Mas pergunte a si mesmo: qual foi o último vídeo viral de 15 segundos que realmente mudou sua visão de mundo? Provavelmente nenhum.
Em 2026, a meta é editar melhor. E "melhor" não significa mais efeitos. Significa:
Deixar o take respirar.
Usar o som ambiente original (o barulho do mar, a conversa ao fundo) em vez de cobrir tudo com música pop.
Contar uma história com começo, meio e fim, mesmo que isso leve 3 minutos e o "guru do marketing" diga que ninguém assiste.
Quem se importa vai assistir.
O Luxo da Memória Não Registrada
Por fim, a parte mais difícil desta resolução: aceitar que alguns momentos não são para a câmera.
Haverá pores do sol em 2026 que serão lindos demais para caber em um sensor Full Frame. Haverá jantares com amigos onde a luz estará perfeita, mas a conversa estará melhor ainda.
Nesses momentos, a resolução é ter a coragem de deixar a lente tampada.
A maior mentira que nos contaram é que "se não foi postado, não aconteceu". Aconteceu, sim. E foi tão bom que você estava ocupado demais vivendo para se preocupar em enquadrar.
Que em 2026 a gente tenha menos arquivos "MVI_9823.MP4" esquecidos no computador, e mais histórias inesquecíveis na cabeça.
Feliz Ano Novo. Agora, largue o celular e vá viver.

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